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A relativização moral e a desonestidade intelectual

Você diferencia opinião profissional de opinião pessoal? Ou ambas necessariamente devem se fundir em uma só? Pense apenas o suficiente para confrontar suas percepções com o que vem a seguir.

Pois bem. Conheço um advogado muito competente que também é pastor evangélico. Imagino que suas convicções pessoais possam assumir determinados conflitos, devido suas vocações que não parecerem exatamente consonantes. Mas ainda sim, conseguiu ultrapassar todas as barreiras e alcançar excelência profissional. Não sem receber questionamentos rigorosos de alguns pares e congregados.

Pode soar pretensioso. E não tem outra forma de expor. Este é o melhor exemplo em que pude pensar. Um homem, pai de família e líder espiritual que ganha a vida advogando o direito de pessoas que, algumas vezes, cometeram graves crimes e mesmo assim não deixa de ser uma boa pessoa.

É claro que não dá pra ser absolutamente bom. E antes que estas linhas acabem por tornar em um ensaio nietzschiano, vou direto ao ponto: O homem a que citei é desonesto? Prega a religião num dia e no outro livra um assassino perigoso da cadeia. Não seria, dessa forma, hipócrita?

Bem, já que propus a indagação, também proponho a resposta. Não! Ele não é desonesto, nem hipócrita. É um profissional e vive dilemas éticos como qualquer outra pessoa. Mas pode-se perceber certa relativização moral. Isso porque, o encargo da profissão lhe permite. Seria muito mais danoso, tanto para a sociedade quanto para a efetiva administração da Justiça, que ele se opusesse a respeitar os preceitos que regem sua atividade.

Imagine, então, um médico atuando no cuidado de pacientes em grave estado e advindos de um acidente de trânsito, tendo a vida tanto da vítima quanto do causador do acidente para cuidar e com poucos recursos disponíveis. O médico não poderia demandar atenção especial de forma arbitrária ou fazer juízo de valor, uma vez que nessas situações existem protocolos técnicos a serem seguidos, e entraria no mesmo dilema ético citado no parágrafo anterior. Ora, isso é normal. Sua condição lhe garante a obrigação de prestar os cuidados possíveis e arcar com as consequências.

Agora você pode questionar: Por que isso importa? Bem, nos casos citados apesar de haver relativização moral, não há desonestidade intelectual. Simples.

A relativização moral, aliás, ocorre quando os limites que separam o “certo” do “errado” podem ser confundidos. E é este o ponto ao qual quero chegar. Afinal, vivemos esta dualidade todos os dias.

Mas e a desonestidade intelectual? Ah… essa é a manipulação de determinados instrumentos de opinião para não evidenciar uma relativização exacerbada ou transparente da moral. Em suma, é praticar a relativização mas fingir o contrário. É defender uma ideia ‘absurda’ e utilizar embustes argumentativos para sustentá-la, especialmente a afirmação da benesse coletiva.

Desenho pra quem não entendeu.

Você certamente conhece algum caso. Afinal, esta é a era do rebelde chapa-branca. Aquele que prega a igualdade mas reclama privilégios pela condição de enfrentar o sistema. Prega a liberdade mas se esconde atrás de medidas autoritárias. E logo acusa de reacionário! quem o confronta.

Para termos exemplificativos, demonstrarei: algumas pessoas defendem o discurso de que Marighella foi um grande revolucionário e vítima da opressão do regime militar, sendo portanto um mártir da luta política que pregava a liberdade e a democracia. Uma espécie de Che Guevara brasileiro. Você, certamente, já deve ter ouvido falar ou lido por aí. Quanta desonestidade intelectual!

Bem, um guerrilheiro nada mais é que… um guerrilheiro! Ora, alguém que assume a luta armada para alcançar seus fins, tem de estar pronto para enfrentar as consequências de suas escolhas. Além disso, por que mentir e perpetuar a mentira para tornar a figura mais simpática aos olhos da sociedade atual? Deve ser porque guerrilheiro soa muito mais para Terrorista do que para Libertador.

A mesma ideia se aplica aos defensores de discursos parciais, sejam radicais ou moderados, e de qualquer lado do espectro político que se encaixem. Relativizar a discussão em torno de direitos é a forma menos sensata de buscar uma abordagem objetiva, seja política, social ou jurídica. Apesar de algumas pessoas não fazerem questão de ser objetivas e tentarem realmente confundir para convencer, “vencer o debate”.

Entretanto, nem toda opinião mal sustentada é desonesta. Algumas vezes é apenas ignorante. Um indivíduo que defende condições desumanas para “bandidos” presos por se achar cumpridor da lei e cidadão de bem não difere muito de um indivíduo que invade a propriedade alheia por não ter sua própria.

O que diferencia a desonestidade intelectual da ignorância, em suma, é a maneira como se desenvolve e demonstra opinião através de signos (visuais, orais, etc). O ignorante precisa de mais informação e o mau caráter precisa de mais palavras rebuscadas. Afinal, tais qualidades não são dadas aos discursos, e sim às pessoas que os sustentam.

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