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“Religião x Ciência” na Era das Redes Sociais: Novas Formas de Encarar um Velho Debate

Dentre todas as contendas nas Redes Sociais, uma é de longe a mais grotesca: Religião x Ciência. Não que veja problema em discutir, ao contrário, endosso. No entanto, não acho que as Redes Sociais sejam o ambiente propício para tal. Parece que vira um ambiente de hostilização comum, onde quem juntar mais partidários da mesma opinião vence. Talvez eu não seja o único a ter essa impressão.

Religião x Ciência

Busco aqui, fazer uma análise superficial. Tratando a questão em termos genéricos. Sem discriminar grupos ou indivíduos. Afinal, certamente terei tempo para análises de políticas do Vaticano e a prática comercial das igrejas neopentecostais, ou de questões de bioética até a eutanásia.

Foi justamente pensando em controvérsias como essas que decidi criar um blog e expor de forma aberta e n’uma construção objetiva meus posicionamentos em relação à questões gerais. Ou seja, tenho buscado ser mais polido… o rótulo de polêmico não me incomoda, mas é desconfortável perceber que grande parte das pessoas não está pronta para lidar com opiniões divergentes sendo difundidas de forma livre. É o senso de proteção e conveniência, uma espécie de etiqueta social. Mas divago…

As Redes Sociais, especialmente as duas com maior poder de comoção discursiva: Facebook e Twitter, passaram a ser um espaço disputado por grupos que buscam expandir determinado poder de influência. Isso é um efeito natural do atual paradigma da comunicação, nem é preciso ser sociólogo ou analista de mídias para perceber.

Uma patricinha It Girl espera receber curtidas em suas fotos de “looks” e baladas da mesma forma que o partidário de determinado movimento ou corrente de pensamento espera ter seus seus textos compartilhados e difundidos, para alcançar mais gente na tentativa de divulgar seu ideário. Não estou dizendo que são a mesma coisa, mas é a mesma forma de medir a aceitação e sucesso no objetivo.

E é nesse momento que as controvérsias conceituais iniciam. Em relação ao tema proposto no título, fica claro: de um lado temos os religiosos, do outro os questionadores e no meio os moderados. Porém, a percepção mais nobre e necessária é simples: nenhum desses grupos é uno.

Nem os religiosos pensam igual, tampouco os questionadores e moderados. Explico: entre os religiosos existem os fundamentalistas e os racionalistas; entre os questionadores existem os céticos, ateus (humanistas seculares), agnósticos; e entre os moderados existem os religiosos “não praticantes” que tendem a um dos lados em temas específicos.

Religião e Política. A verdade é que, como em outros campos, a questão intelectual que circunda a religião virou um tema político e há muito se afastou de seu fundamento filosófico. Quem nunca ouviu a célebre frase “Política e Religião não se discutem”. Como não? Estaríamos vivendo em cavernas caso fosse verdade.

Aristóteles, um dos pais da filosofia e da lógica científica ocidentais, dentro da contextualização racional em que se propunha a discutir não evitou tratar da figura de um Ser Supremo, uma causa primordial ou força impulsora, apesar de também ter tratado da Dualidade. Soa familiar? Como é difícil viver preso à uma concepção apenas, ainda mais na era da informação e da valorização da técnica e da ciência.

Ciência x Religião: fatores históricos e culturais. Alguns dos aspectos mais imprecisos nas relações modernas entre Religião e Ciência com certeza são os fatores históricos e culturais. Isso porque é difícil mensurar a participação de cada uma dentro do contexto cultural. Assim como as ciências passaram a ditar o progresso através do desenvolvimento da técnica e da crítica, a religião foi responsável por sustentar a base moral da sociedade. E novamente, a Política passa a ser a interface entre os dois campos.

Karl Marx abandonou sua fé religiosa em nome do ateísmo para sustentar seu ideal de sociedade “perfeita”, sem classes. Pois acreditava que a religião garantia uma “libertação ilusória” ao homem. Sua crítica era voltada, em essência, para o cenário disposto à época. O que, até certo ponto, assemelha-se ao princípio motivador da Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero na cúpula da Igreja Católica que buscou reformar questões religiosas mas também políticas. A diferença? Os fins. Ambos buscavam reformar a maneira como o poder era exercido.

É impossível negar a importância da movimentação política que resultou na realidade que vivenciamos hoje. A base da sociedade ocidental é a moral cristã familiar, produto de um processo iniciado em Roma. A ciência, por sua vez, tomou a forma que conhecemos hoje a partir de uma revolução de pensamento iniciada com o Renascimento/Iluminismo/Humanismo. Foi justamente o equilíbrio e integração desses processos que culminaram no paradigma social atual.

O desenvolvimento da Medicina garantiu maneiras eficientes de tratar e prevenir doenças, mas o modelo hospitalar como conhecemos foi proposto pelas casas de acolhimento e cuidados solidários. Centenas de cientistas morreram desenvolvendo experimentações para o progresso científico, bem como religiosos que morreram lidando com doentes ou indivíduos em risco social quando a medicina não os alcançava.

“Algumas pessoas acreditam que Deus é um enorme homem de pele clara com uma longa barba branca, sentado em um trono em algum lugar lá em cima no céu, ocupado na contagem da queda de cada pardal. Outros – como Baruch Spinoza e Albert Einstein – consideraram Deus como essencialmente a soma do total das leis da física que descrevem o Universo. Eu não conheço nenhuma evidência convincente para a existência de um patriarca antropomórfico controlando o destino da humanidade a partir de algum ponto celestial escondido, porém seria uma insanidade negar a existência das leis da física.” – Carl Sagan

Aspectos da Fé. No filme Contato, uma adaptação de um romance homônimo de Carl Sagan (cientista famoso por seus trabalhos e posições ceticistas), a comunidade científica encontra fortes evidências da existência de vida extraterrestre, e através de um contato tais seres enviam instruções de projeção de uma máquina de transporte espacial. No decorrer do enredo, ficam evidentes as divergências entre ciência e religião, mas a questão crucial é também o ápice do filme, quando a protagonista tem que provar perante um tribunal que realmente realizou a viagem.

Em suma, a personagem não poderia comprovar que realizou tal viagem, que para ela durou cerca de 18 horas, mas para quem estava do lado de fora, menos de cinco segundos. Isso porque os equipamentos de gravação pararam de funcionar. E ao final, tudo o que a cientista pede aos seus colegas, para comprovar que realizou o feito, é “um pouco de fé”.

Essa é a nossa ciência. Baseada em axiomas e fundamentações metodológicas que serão refutadas em algum momento, para que haja progresso. Tudo baseado na confiança do processo. Em que difere da religião, então? Ora, na fidelidade à sistemática. Enquanto a religião prende o entendimento a um ensinamento repassado entre gerações e ao respeito à tradição, a ciência busca a racionalização e a crítica. O que não significa que ambas não possam ser ajustadas a conviverem bem.

Conclusão. Questionar uma abordagem à luz de outra, pode não parecer muito sensato. Questionar a Ciência a partir da ótica religiosa, por exemplo, é um processo delicado onde as divergências podem ser facilmente refutadas simplesmente a partir da crença tomada como fato absoluto.

Isso pode ser muito perigoso, especialmente utilizando de ferramentas de comunicação massiva, onde inúmeras pessoas podem ter acesso mesmo sem querer e se ofenderem de alguma forma, gerando reações intolerantes e/ou inesperadas. Entretanto, questionar a Religião a partir da ótica científica, pode ser tão arriscado quanto na primeira hipótese.

Devido a maneira sistemática e racional como as ciências se desenvolveram, pode-se criar a impressão de sua primazia sobre a religião, pois esta é mais suscetível à influência e variação histórica e cultural. A religião suméria, por exemplo, compartilhava poucas referências com o Judaísmo ou o Cristianismo que regem a sociedade ocidental atual. Enquanto as contribuições científicas sumérias permaneceram, sua religião sucumbiu e não demonstra grande influência no mundo que conhecemos e vivemos.

A espiritualidade é uma necessidade inerente ao indivíduo e o leva a se situar dentro do Universo. Foi essa espiritualidade que motivou a gênese da religião e de processos intrínsecos, além da filosofia e da ciência, como consequência.

Espiritualização não é necessariamente religiosidade, mas cabe ressaltar neste ponto que, mesmo de forma simplória, a religião esteve à frente de todas as metodologias que se propunham a explicar o Universo. E todas essas metodologias tem estado dependentes de uma mesma necessidade: fé. A mesma que faz você acreditar que esse texto não é mero fruto da sua imaginação…

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